terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Uma história sobre a liberdade


Num opúsculo, Gramática da liberdade, um filósofo contemporâneo nos convida a meditar sobre fatos como estes:

“Um homem foi esmagado pelo comboio 131 na linha 3 da estação do metropolitano de Saint-Lazare... Esse homem tinha 29 anos. Ontem, Bernardo andava em uma das extremidades da plataforma, de um lado para outro; afastou-se dos passageiros, inclinou-se para olhar as luzes da máquina e foi lançado sobre os trilhos, de pés juntos e braços ao longo do corpo, como mergulhador. Com suas pernas cortadas, o rosto queimado, morreu imediatamente. Ele não mais dobrará a esquina da Rua Ordener, onde, ainda criança, aprendera os jogos de bolas de gude e de gato empoleirado; não mais subirá a escada estreita onde o mau cheiro de frituras e da latrina; não lerá, apoiado pelo fogão a gás, sob a fresta da cozinha os anúncios de emprego do Paristein libéré. Ele havia aprendido a profissão paterna: alfaiate de meia confecção; há cinco meses estava desempregado: pequenos anúncios, escadas, recusas duras... e, depois, suas roupas tornaram de tal forma andrajosas que não ousava mais sair.

(Algum de nós já ficou dias inteiros deitados na cama com a impressão de não ter mais aspecto de homem, num mundo que recusa seu trabalho?)

Bernardo ouvia as panelas de sua mãe, do outro lado do tabique, ele vive à custa da mãe; saiu ainda uma vez; na fábrica, recusaram-no para servente porque era muito fraco; no escritório, um chefe de serviço olhou hostilmente seus sapatos furados: não há vaga. Às sete horas da manhã do dia seguinte, ele se insinuou para a entrada do metrô de Saint-Lazare, na hora de volta ao trabalho. Todos estão presos ao relógio, preocupados com o trabalho. Ele está livre. É livre, pode ir ao museu ou ver as flores dos parques, é livre para pensar a física de Einstein ou na Imaculada Conceição. No momento ele se sente livre, sobretudo para escolher entre o bico de gás ou os carros do metrô.

São sete horas da manhã. Começa um dia de homem livre: Um homem foi esmagado pela composição 131. Bernardo, um homem livre entre os homens livres, foi esmagado por essa liberdade.

Isso revela um trágico brilho, a ambigüidade dessa palavra liberdade. O desempregado é livre, visto que não está sujeito aos horários da fábrica ou do escritório nem pelo peso da tarefa cotidiana. Ele é escravo, porque está sujeito à opressão da miséria. É livre para procurar o trabalho que os empregadores são livres para lhe recusar. E, em conseqüência, ele nem é mais livre para viver.

Huisman, Denis e Vergez, André. Curso moderno de filosofia: introdução à filosofia das ciências. Trad. Lélia de Almeida Gonzalez. 5a. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1974. p. 317.

3 comentários:

Bar e Restaurante Ricmar disse...

O texto é muito triste, mas realmente clamamos tanto pela liberdade, pela nossa autonomia e quando a temos, o que fazer dela? Há momentos em nossa vida, que nos sentimos assim como o protagonista dessa tragédia: temos uma escolha a fazer. Ninguém poderá fazer por nós. Ele usou seu livre arb´trio dando fim a essa liberdade que lhe era insuportável. Quantos não fazem o mesmo diariamente? o que fazer quando se olha o futuro e só se enxerga o nada? Mergulhar nesse nada é uma opção que eu pessoalmente respeito.

Tiago Luís disse...

Faltou apenas a fonte:

Huisman, Denis e Vergez, André. Curso moderno de filosofia: introdução à filosofia das ciências. Trad. Lélia de Almeida Gonzalez. 5a. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1974. p. 317.

Conheço esse texto do livro didático "Um outro olhar" de Sônia Maria Ribeiro de Souza. Ed. FTD

Solilóquio ao longe disse...

Que belo texto refletindo liberdade. Há uma ideia de P. Young que diz sobre o homem que reivindica sua liberdade e não percebe que há toda uma força ao redor ou interna que o impede de ser livre, seja suas neuroses e fobias psicológicas, a sociedade que te nega oportunidades, e vai além... até toda uma física quântica te impulsiona ou te afasta do seu intento. Bom, a teoria dele é mais complexa que minhas palavras em síntese, mas enfim, o homem é pretensioso em dizer que é livre.
...................................
Gostei do seu blog, te seguirei, retribui?
gosta de poesia? venha visitar-me em: www.soliloquioaolonge.blogspot.com

... um abraço.