quinta-feira, 15 de maio de 2008

A menininha


Depois da aula convidou-me um amigo para ir com ele almoçar e por na ocasião querer burlar meus caminhos de sempre, resolvi ir sabendo que minha presença o aliviaria na conversa ou ciente do meu estado frágil, pioraria suas convicções.


Eu nunca havia pensando que retardar suas atividades pra fazer bem a alguém fosse imediatamente compensador em situações onde raramente podemos tocar os estados sensíveis que a existência vez ou outra nos oferece.

Após o almoço, de carro, fui com ele até onde me serviria cortar caminho pra chegar em casa. Me deixou numa grande avenida e parei por lá pra pegar o ônibus.

Estava o tempo dando vaga pra chuva e o mormaço me vestia o corpo como um casaco pesado em dia de calor. Que terrível é sentir desconfortado o corpo quando parece que a alma está prestes a se desafogar do vazio como um ônibus cheio de gente querendo logo voltar pra garagem como se isso tivesse sopro de vida e vontade terrível de descanso. Isso era eu projetado num carro imenso cheio de gente como se eu estivesse cheio de eus. Por ali, andei testando aliviar a dor pensando poder resolver tudo o que sou sem saber de tantos eus.

Sentei-me ainda sonolento num dos bancos que compõe o conjunto do lugar onde esperamos o coletivo. Sem os óculos ainda é mais difícil enxergar, porém, sei das pistas que os ônibus me oferecem de longe, afinal, estou me referindo ao lugar móvel onde constantemente viajo dormindo com profundidade. Me lido com o que não vejo e não preciso de evidências claras pra saber que o que não sei é o que na verdade sei.

São tantas opções. Eu esperava um coletivo mais vazio afim de até minha casa, sentado, pudesse dormir. Se eu não tivesse ido almoçar, se eu não decidisse parar repentinamente naquela avenida e não tivesse esperando o segundo farol ao invés do primeiro pra atravessar, se não tivesse escolhido qualquer ônibus cheio ao invés do vazio, certamente não saberia que algo me esperava.

Essas pequenas escolhas tecem as grandes vias dos melhores e mais sutis acontecimentos aparentemente não talhados pelos que muitos não chamam de acaso, mas de alguma causa direcionada ao meu profundo e desconhecido desespero.

Pela janela, o ônibus não me traria dessa vez bancos vazios para eu dormir, mas sim, inocência e pureza que só uma criança concede as almas corrompidas pela mentira ou vendidas por capricho benéfico, assim, uma menininha me olha, me sorri e diz sem eu ouvir, lendo seus lábios, que me amava. Que espanto. Alguém me disse "eu te amo" sem querer por isso nada em troca.

O amor da criança enxerga para além do olhos e para aquém do desconhecido. Uma criança me disse em tom de pureza que me amava e isso me invadiu o calcanhar e foi se alojar na alma.

O ônibus foi embora. Eu dessa vez, nem dormi. Fui dentro do ônibus de pé pra me convencer que o amor não nos cansa e nem nos deixa dormir quando pensamos que amar nos cansa também.

4 comentários:

Alessandra disse...

Bonito texto.
Beijos!

- Biih disse...

-
,o texto... foi vc qe escreveu ou viu em algum lugar?
*;

- Biih disse...

-
, muito bonito o texto! :)
de nada! obrigada pelo comentário tbm! beijos!

Dih da Pâhzinha... disse...

ótimo texto...
ao menos até onde eu parei de ler...

http://dihdusbeko.blogspot.com/