terça-feira, 15 de setembro de 2009

De mãos estendidas, cegas e encardidas.


Os homens, tão apressados, estendem uma cortina em seus olhos.
Não querem ver as minúcias, não querem tomar ciência da dor urbana.
Em torno a si, dão-se as mãos a cerca e os arames farpados.
Para não romper o elo que segrega, aplacam os punhos do real com um escudo forjado na ilusão.

De quem são estas mãos vazias?
São tão inobserváveis mesmo sendo vistas.
Querem presentificar o que o egoísmo torna ausente, querem sentir a leveza do metal cujo valor está em alimentar o corpo faminto,
o corpo doente,
a família carente...

E estas encardidas? De quem são?
Ontem eram as que na boca trouxeram um parque de diversão, um circo que oferta o prazer do vício desgovernado,
completamente entregue,
indomável.
Hoje são as que pedem um pedaço de pão e dos espectadores, longes da contemplação, recebem a indiferença, um não.

Em cada esquina, em que cada passo que dou, trombam o cheiro de urina e o perfume, a pobreza e as migalhas no chão, o esclarecido e o louco profeta.

Todo dia destas mil mãos humanas de ontem foi hoje a cópia das mil mãos humanas de amanhã.

As mãos que enrolam as farpas de arame põem um termo a solidariedade que sem rumo cansa e magoa os olhos acortinados e enfraquecidos.

Mãos cândidas ou de luz. Se tudo isso querem, aqui não serão.
Vejo nelas os cravos de Jesus, ali, onde pende o sacrifício do mundo por detrás do fogo, da guerra, na cruz.

sábado, 15 de agosto de 2009

Saber esperar



O que me atormenta não é a realidade de minhas fraquezas quando, pensando nelas, acredito ter-se tornado impossível realizar alguns intentos.

Caído, prestes a beijar o chão do fracasso, corro o risco de perder a coragem, de desistir.

É no chão que conheço o amor de Deus.

Tudo é graça.

Qualquer prestes a cair fará que eu compreenda ainda mais o valor da espera, porém, a desconfiança de mim mesmo faz germinar a confiança em Deus, nosso Pai.

O homem angustiado - não o desesperado -, o cavaleiro kierkegaardiano, dispõe antes da oração para dar a sua vida o que não tem a fim de que o alimento sagrado seja alimento pro seu cotidiano.


Esperar provoca uma reação violenta e põe na realidade do tempo a existência de Deus em questão.

A fé é a chuva que cai depois que a espera insistiu em ser longa estiagem.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

8.784 horas


Alyria,

Pássaro infeliz. Engaiolado?

Garça perdida. À beira do mar salgado?

Não...

Sou um animal que não bebe mais o cálice da tristeza.
Meu nome já não tem mais a ideia do Nada!

E se nas ruas arrasto minhas misérias,
vens com teus olhos perfumados fazer-me definitivo, encontrado.

Oito mil, setecentas e oitenta e quatro horas como um coral rodeado pelo mar,
nunca dentro de aquários.

Juntos num quarto pequeno,
tão profundamente pequeno...

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A prece


Aconteceu que ele rezou. É a vida de quem, à sua maneira, oferece o desconhecido a Deus dia-a-dia.

Para ele, o real é uma impermanência que dura, uma versão piorada da impermanência dos homens.


Há muito que vejo sua prece vestida de dor para sagrar em nós o compartilhamento dos que o fizeram fracassar.


Deus não é de falar muito quando a Ele queremos governar, mas ontem ele deixou Deus falar.


As orações de meu pai - desavergonhadas desde sempre - me dão conclusões do ser como ele é, e de como o mundo se porta em relação ao que acreditamos que seja.


A oração combate às ilusões...


Assim, caminhando, pisaram em seu nome num papel insignificante e logo em seguida Deus dirigiu-se a ele de modo inesperado.


Previsível?
Só o real em sua impermanência e não nos fatos.

A dignidade do real está em Deus. Não por ser Deus o real insuportável, mas por Ele estar lá quando sentimos ser difícil demais.


Deus é um não sei no real.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Leviano


A mágoa quando através de nós toma as vestes da mentira

é um calibre qualquer apontado em nossa direção.


Então você se joga nas trincheiras do silêncio,

acuado,

com medo de qualquer argumento explodir

e detonar em instantes o que demorou anos pra começar.


A vida me pôs num tambor uma única chance pra acreditar.


O calibre mudou de estratégia,

mas não de direção.


Esta guerra,

tão barulhenta e tão insana

cobre o céu de outras mentiras que nos podem atingir.


Se então,

atento a vida do outro com meus erros,

o que farei quando um balaço alcançar minha paz?

terça-feira, 8 de julho de 2008

Ao relógio

Ande...
Aliás:
Corra...
Vamos, corra mais...

Apresse os ponteiros,
corte pela metade os dias que me restam só.
Ando te olhando desesperado,
estou ávido dos ardis desta aflição.

Já são mais de seis meses inteiros,
todos os dias de então,
de dez em dez minutos
estancando o sangue da saudade,
e estacando os sonhos de amor.

Acalme-se...
Aliás:
Tranqüilize-se...
Apesar de implacável, ninguém jamais lhe deu freios...

Concede-me não correr
e não nos jogue adiante demais.

Seja-nos justo:
Corra quando eu for pros abraços,
nos braços dela.
Acalme seus ponteiros,
quando sabendo não me amar o bastante,
seja capaz de amá-la tanto,
a ponto dos ponteiros silenciarem-se
em honra aos clamores de nossa felicidade.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Incomunicável


Hoje eu acordei com vontade de dormir de novo.
Todo dia nos dado é dia do novo,
dia de novo encanto,
de cantos antigos em qualquer um dos cantos do meu coração.
Acordei com saudade dos dias de poucos bolos,
de poucas velas,
dos presentes dados com muita pena,
muita penação e muita reza.

Aqueles eram dias eufóricos?
Não.
Eram sim,
máscaras da tristeza,
eram feridas abertas,
cobertas de um sonho esperando a verdade há mais tempo
que minha estação celebrada nas embalagens do hoje.

Hoje eu acordei sabendo que mudar é passar pela dor.
Eu soube que aquele tempo, todo o nada que eu tinha
é realmente nada do que tenho hoje.
Que falta nos faz a inocência,
das verdades nuas e desavergonhadas,
daquele quarto de todos nós,
um castelo em minhas ânsias,
Daquelas flores,
um jardim em meu paladar.

A dor não é a mesma continuamente
e nem para sempre.

Deus é o sempre,
comigo ininterruptamente.

E pra hoje,
colho os restos do passado e com ardor,
devoro as minúcias
pra semear os detalhes,
pois em retalhos,
vou costurando um cobertor de memórias,
e colhendo as histórias
pra eu sempre lembrar de mim
quando debaixo dele eu acordar.

Acordar com ela...