sexta-feira, 12 de novembro de 2010

ENEM 2010: Questões de Filosofia

A política, foi inicialmente, a arte das pessoas se ocuparem do lhes diz respeito. Posteriormente, passou a ser a arte de compelir as pessoas a decidirem sobre aquilo de que nada entendem.

VALÉRY, P. Cadernos. Apud BENEVIDES, M.V.M. A cidadania ativa. São Paulo: Ática, 1996.

Nesta definição o autor entende que a história da política está dividida em dois momentos principais: um primeiro, marcado pelo autoritarismo excludente, e um segundo caracterizado por uma democracia incompleta. Considerando o texto, qual é o elemento comum a esses dois momentos da história política?

a. A distribuição equilibrada do poder.
b. O impedimento da participação popular.
c. O CONTROLE DAS DECISÕES POR UMA MINORIA.
d. A valorização das opiniões mais competentes.
e. A sistematização dos processos decisórios.

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O príncipe, portanto, não deve se incomodar com a reputação de cruel, se seu propósito é manter o povo unido e leal. De fato, com uns poucos exemplos duros poderá ser mais clemente do que outros que, por muita piedade, permitem aos distúrbios que levem ao assassínio e ao roubo.

MAQUIAVEL, N. O Príncipe. São Paulo. Martin Claret, 2009.

No século XVI, Maquiavel escreveu O Príncipe, reflexão sobre a monarquia e a função do governante. A manutenção da ordem social, segundo esse autor, baseava-se na

a. Inércia do julgamento de crimes polêmicos.
b. Bondade em relação ao comportamento dos mercenários.
c. Compaixão quanto à condenação de transgressões religiosas.
d. Neutralidade diante da condenação dos servos.
e. CONVENIÊNCIA ENTRE O PODER TIRÂNICO E MORAL DO PRÍNCIPE.

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A lei não nasce da natureza, junto das fontes frequentadas pelos primeiros pastores; a lei nasce das batalhas reais, das vitórias, dos massacres, das conquistas que têm sua data e seus heróis de horror: a lei nasce das cidades incendiadas, das terras devastadas, ela nasce com os famosos inocentes que agonizam no dia que está amanhecendo.

FOUCAULT, M. Aula de 14 e janeiro de 1976. In: Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

O filósofo Michel Foucault (séc. XX) inova ao pensar a política e a lei em relação ao poder e à organização social. Com base na reflexão de Foucault, a finalidade das leis na organização das sociedades modernas é

a. Combater ações violentas na guerra entre as nações.
b. Coagir e servir para refrear a agressividade humana.
c. Criar limites entre a guerra e a paz praticadas entre os indivíduos de uma mesma nação.
d. Estabelecer princípios éticos que regulamentam as ações bélicas entre países inimigos.
e. ORGANIZAR AS RELAÇÕES DE PODER NA SOCIEDADE E ENTRE OS ESTADOS.

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A ética precisa ser compreendida como um empreendimento coletivo a ser constantemente retomado e rediscutido, porque o produto da relação interpessoal e social. A ética supõe ainda que cada grupo social se organize sentindo-se responsável por todos e que crie condições para um exercício de pensar e agir autônomos. A relação entre ética e política é uma questão de educação e luta pela soberania dos povos. É necessária uma ética renovada, que se construa a partir da natureza de valores para organizar também uma nova prática política.

CORDI. et al. Para filosofar. São Paulo: Scipione, 2007 (adaptado)

O século XX teve de repensar a ética para enfrentar novos problemas oriundos de diferentes crises sociais, conflitos ideológicos e contradições da realidade. Sob este enfoque e a partir do texto, a ética pode ser compreendida como

a. INSTRUMENTO DE GARANTIA DA CIDADANIA, PORQUE ATRAVÉS DELAS OS CIDADÃOS PASSAM A PENSAR E A AGIR DE ACORDO COM VALORES COLETIVOS.
b. Mecanismo de criação dos direitos humanos, porque é da natureza do homem ser ético e virtuoso.
c. Meio para resolver os conflitos sociais no cenário da globalização, pois a partir do entendimento do que e efetivamente a ética, a política internacional se realiza.
d. Parâmetro para assegurar o exercício político primando pelos interesses a ação privada dos cidadãos.
e. aceitação de valores universais implícitos numa sociedade que busca dimensionar sua vinculação à outras sociedades.

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Na ética contemporânea, o sujeito é não é mais um sujeito substancial, soberano e absolutamente livre, nem um sujeito empírico puramente natural. Ele é simultaneamente os dois, na medida em que é um sujeito histórico-social. Assim, a ética atinge um dimensionamento político, uma vez que a ação do sujeito não pode mais ser vista e avaliada fora da relação social coletiva. Desse modo, a ética se entrelaça, necessariamente com a política, entendida esta como a área de avaliação de valores que atravessas as relações sociais e que interliga os indivíduos entre si.

O texto, ao evocar a dimensão histórica do processo de formação da ética na sociedade contemporânea, ressalta

a. Os conteúdos éticos decorrentes da ideologias político-partidárias.
b. O valor da ação humana derivada de preceitos metafísicos.
c. A sistematização de valores desassociados da cultura.
d. O SENTIDO COLETIVO E POLÍTICO DAS AÇÕES HUMANAS INDIVIDUAIS.
e. O julgamento das ação ética pelos políticos eleitos politicamente.

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A questão tinha um quadrinho da Mafalda dizendo numa fila para vacinar-se a uma enfermeira: "Viemos nos vacinar contra o despotismo"

Democracia: “regime político no qual a soberania é exercida pelo povo, pertence ao conjunto de cidadãos.”

JAPIASSÚ, H; MARCONDES, D. Dicionário Básico de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

Uma suposta “vacina” contra os despotismo, em um contexto democrático, tem por objetivo

a. Impedir a contratação de familiares para o serviço público.
b. Reduzir a ação das instituições constitucionais.
c.Combater a distribuição equilibrada de poder.
d. EVITAR A ESCOLHA DE GOVERNANTES AUTORITÁRIOS.
e. Restringir a atuação do parlamento.


terça-feira, 20 de julho de 2010

Amigos na prosperidade ou na desventura?


O que se lê abaixo é um trecho do livro XI do Ética a Nicômaco de Aristóteles.
Devorem...

"Há mais necessidade de amigos na prosperidade ou na desventura? Em ambos os casos, na verdade, as pessoas procuram amigos, considerando que precisam de ajuda tanto os que enfrentam dificuldades na vida, como também aqueles que, mesmo vivendo na prosperidade, necessitam de companheiros e de pessoas a quem beneficiar, pois, o que eles querem mesmo é fazer o bem. Ter amigos na desventura é deveras a coisa mais necessária, pois é nesses momentos que há necessidade de pessoas úteis, mas ter amigos na prosperidade é mais honroso; por isso procuram-se amigos estimados, considerando que é preferível beneficiar este tipo de pessoas e passar o tempo junto deles. De fato, a presença dos amigos é de per si agradável tanto na prosperidade como também na má sorte, pois mesmo aqueles que sofrem, ficam aliviados se os amigos sofrem com eles. Por isso, alguém poderia se perguntar se isso ocorre porque os amigos tomam como que uma parte do peso sobre si, ou não é propriamente por causa disso, mas sim, porque, sendo a sua presença agradável, e a idéia de que outra pessoa está sofrendo junto conosco, tornam menos o sofrimento. Entretanto, se quem sofre seja aliviado por este ou por outro motivo, deixemos de investigar por enquanto, confirmando porém, em todo o caso, o que dissemos há pouco.

O efeito da presença dos amigos, por outro lado, parece ser algo complexo. De fato, o próprio fato de ver os amigos é agradável, e de modo especial a quem está passando por uma situação ruim, recebendo dos amigos uma ajuda contra o sofrimento (na verdade, quando o amigo é competente, leva consolação tanto pela sua presença como também através de suas palavras; pois, ele conhece não só o caráter da pessoa que está sofrendo, como também o que ela deseja e sente). Por outro lado, é doloroso perceber que um amigo se aflige pelas nossas desgraças; na verdade, cada qual procura evitar ser causa de sofrimento para os amigos. É por isso que os homens corajosos por natureza se resguardam de comunicar o próprio sofrimento aos seus amigos, e um homem desse tipo, mesmo sem exceder na própria sensibilidade diante da dor, não suporta causar a eles qualquer sofrimento. Além disso, ele próprio afinal, não se aproxima de pessoas inclinadas a choradeiras, pois ele próprio não gosta disso. As mulherzinhas, porém, e os homens demasiado sentimentais gostam daqueles que também se afligem com eles. Ora, é evidente quem em cada coisa é necessário sempre imitar o melhor. A presença dos amigos na prosperidade, no entanto, torna agradável a nossa maneira de viver, proporcionando-nos a idéia de que eles também gozam dos nossos bens. Por isso, parece ser uma atitude positiva convidar com solicitude os amigos na prosperidade (é honroso, na verdade, beneficiar alguém); porém, quanto a convidá-los na desventura, é bom usar de cautela (considerando ser necessário evitar que eles participem o menos possível dos nossos males, obedecendo ao ditado que reza: “para ser infeliz basto eu”). Entretanto, é necessário convidá-los, sobretudo quando eles, com um pequeno incômodo, podem ser para nós de grande ajuda.

É oportuno pois, de nossa parte, prestarmos socorro a quem passa por momentos difíceis mesmo sem sermos chamados e com prestimosidade (de fato, é próprio do amigo favorecer a outros, sobretudo beneficiar a pessoas que se encontram na necessidade, mesmo quando nada pretendem; isso na verdade é mais bonito e mais agradável para ambos); para com aqueles que vivem na prosperidade, porém, é oportuno tratá-los como solicitude, mas só para colaborar (de fato, é justamente por isso que há necessidade de amigos), ao passo que para receber benefícios é preciso proceder com cautela (de fato, não é honroso desejar receber favores). Por outro lado, é preciso igualmente evitar a fama de sermos intratáveis recusando qualquer benefício: como, por vezes, acontece realmente. Portanto, em todos os casos a presença dos amigos parece desejável"

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Minguado


Sabe aquela fome aguda de ideias brilhantes ou aquele acometimento imprevisto do coração quando se põe a escrever versos de amor?
Esta suavidade que com violência escreve no mundo coisas da vida num papel de pão,
num guardanapo usado,
num rascunho ou na palma da mão?

Gostaria que fosse eu estes homens que sonham palavras e que apresentam às páginas vazias o advento de um mundo fértil nas ponta dos dedos,
estes homens que mastigam da vida só o que dela podem digerir ou mesmo estes que de tardinha juntam as mãos agradecendo o espírito erudito das últimas e invencíveis luzes daquele que pode ser seu último Sol.

Eu vivo aqui nas minhas inúmeras contendas internas. Observo muitos e muitos carros vazios e ônibus cheios. Vejo os que dormem de pé e os que na vitrine indiscreta da noite vendem sua pureza em troca de pão. Quantas vezes sob o fardo das dificuldades hesitei em chorar? E quantas vezes chorei de dor por não compreender os pesares do mundo, por não me engajar efetivamente na dor do outro, por não acreditar que a injustiça venceu...

Estou cansado. Quando canso de viver, durmo para aplacar minhas ansiedades.

Quando a gente se cansa dos livros, das orações espontâneas, quando a gente se cansa da esperança, da beleza, quando a gente desdenha a nossa participação no sagrado, quando tendemos a querer o muito do que já temos sinto como se meus combates expusessem muros incógnitos, impossíveis de decifrar.

Apesar de tudo, há um certo alívio.
Prefiro fazer o café que não tomo, o pão com manteiga que não como.
Nesta estrada negativa, ascética onde nada é como tenho imaginado, assim, hei de caminhar por onde não conheço: desconhecendo para conhecer.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Amenizados


São Paulo, 27 de janeiro de 2008

À Alyria,
cujo amor me faz vencer a solidão radical da existência.

Afastados?

Leva distante então os nossos dias,
nossos momentos
e delírios vazios.

Envolva meus Deus em vosso tempo,
os esquecimentos de ontem
que hoje tentam renascer assim,
nesta condição desértica
tentando hoje impor renascendo,
barreiras enormes
e castelos sem fim...

Só não nos leve meu Deus
as mil sensações de desejo que valsam
em ritmo de sonho.

Ajude-nos ainda a sermos um só
em vosso altar e coração.

Isso que nos faz amar
seja sentido aqui,
na pele em arrepio,
na infinita paz e
sem distância,
sem termos,
no desejo e amor constantes.

Do teu Graziano.

sábado, 15 de maio de 2010

Donana


(Uma história verídica que em breve será - por insistência da Alyria - uma das coisas postas num livro meu qualquer...)


Ela gostava de que dispuséssemos de um título honroso antecedendo o seu nome.
Tínhamos de chamá-la de Dona.
O tempo já havia apagado suas feições de moça,
mas também não era uma dama.

Ela não é minha dona - eu pensava - e nem senhora das minhas vontades.
Por que devo chamá-la assim?
No entanto, sendo ela proprietária do imóvel onde morávamos,
era Dona sim:

Dona do lugar,
dos móveis,
do valor do aluguel,
da organização do lixo
e dona da disposição do seu latifúndio moderno.

Tínhamos deferência e respeito por sua trajetória de vida.
O idoso neste país é um alimento lançado nos cantos do mundo como um produto que apodrecido é escurraçado até da fome dos cães.

Tinha feridas visíveis e cada uma delas era revelada com seu imenso prazer em conversar longamente.
Em cada conversa, uma, duas, três feridas abertas e trapos jogados no chão.

Chorava a infância feliz e salivava os pães caseiros.
Queixava-se das dores do pé,
da violência conjugal e dos inquilinos inadimplentes.

Contava-nos de Portugal e de Moçambique.
Muitos móveis que utilizamos eram mais velhos que nós dois juntos.

Sempre acreditei que revirar o lixo é a melhor forma de conhecer alguém.
A Dona descobriu que eu era professor porque eu jogava os rascunhos das minhas provas e logo depois começou a tratar-me com menos desconfiança.
Algumas vezes joguei nosso lixo nas lixeiras da esquina.

Certo dia, vimos as garrafas do iogurte que compramos em sua dependência alguns dias depois de termos consumido seu conteúdo.
Ela tinha desejo pelo nexo que o lixo trazia e eu e minha Alyria,
exorcizamos as sensações físicas que os ratos sentem ao devorar o que o ser humano descarta.

Costurava bem.
Confeccionava suas próprias roupas e fazia compras uma vez por mês.
Comia coisas estranhas.
Enxergava mal e dormia com a TV ligada.
Muito católica, disfarçava suas frustrações na oração e reclamava não ir mais tanto à missa por conta da ferida no pé.

Vistos de perto nunca somos a imagem do primeiro olhar e com a convivência,
afastam-se as sombras e a neblina que impede de ver o que vem de longe.

Ela era assim, pra todos verem,
escancarada,
aberta,
desavergonhada dos momentos que a vida lhe deu.

Somos tão misturados de tudo que as vezes é impossível acreditar que é possível fazer disso uma massa homogênea.
Somos todos da mesma humanidade,
angustiosamente incompreensíveis perante a atitude interior de querer compreender tudo.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Rebeldia Neural


Acusam-me de antes de sentenciar o mundo,
jogá-lo perversamente na cadeira dos réus e recheá-lo de sindicâncias mal elaboradas.

Ora, o que seria de mim se minha caixa neural não pusesse frente a frente numa contenda meu surto estomacal e tudo o que é capaz de sorver do banquete azedo que mundo me serve?

Por não desejar que os "porquês" morram como indigentes
e por não permitirem que o tradicional ainda permaneça obscurecendo os novos sóis cujo calor ainda não senti,
resolvo pela metade de todos os meus dias agitar com força e repetidas vezes tudo o que deve ser posto em controvérsia.

Mesmo incompletos, quem é que se contenta em sê-lo?
Quem ousa dizer que as coisas antigas jamais passarão a fim de que o que é novo em nós continue esquecido nos baús da infelicidade?

Cuidado!
Há muitas instituições no mundo que desejam que você seja uma forma fluída que toma o feitio do molde que lhe apetecem.
Para eles é melhor substituir as interrogações pela tecnologia.
É mais prazeroso um celular novo no bolso do que um homem novo no mundo.

Quanto me causo ânsia.
Há uma lâmina bem ácida saindo de minha garganta, uma rebelião do corpo contra as reivindicações do mundo.

Neste júri de clamor pessoal,
nesta sala antiga sentado numa cadeira inconsolável, preciso de que me defendam a alma.
A inocência tranqüila afasta-me da consciência de mim já que por agora sinto-me um acidente do cosmos, afinal, as vezes dou errado e por outras, enterro as riquezas que o "Dom" me fornece.