domingo, 28 de fevereiro de 2010

Palavra doente


O pensamento procura o que dizer e acaba com as fuças numa inspiração longe de acordar. Fui procurado por mim onde nenhuma raiz pude com força me alojar. O jardim das palavras tornou-se por certo tempo um terreno intimidado pelo temor dos dias sem paz.

Este mês me pus a escrever incontáveis vezes e em todas elas fui derrotado por um vazio que nem dor me causava.
Cansava de saber o motivo e me entregava ao fracasso.

Escrevia, reescrevia e apagava.
Foram estas as únicas flechas que lancei num espaço onde podia segurar sua trajetória a fim de que a culpa pudesse mudar o seu destino. Palavra que o coração não pensa, não pode ser sentida.

Quantas foram as oportunidades que visivelmente não dependeram de mim, daquilo que sei e do que poderia ensinar?
Prefiro não dizê-las. Ainda que seja remédio partilhar, fico com o vírus da tristeza inoculado no indizível, convalescendo daqueles que intencionalmente me jogaram no talvez, no quem sabe...

Vago na consciência de não querer ter tudo e a de ainda não ter tudo o quero. Peno os dias de hoje numa sensação aguda de abandono, fingindo ao me cumprimentarem que tudo está bem como se os quisesse poupar do que alguns podem chamar de uma incurável intranquila lucidez.


Peço-lhe que não me confundam com a solidão, com a ansiosidade, com a depressão e tão pouco com a dependência. Sou gente que se alegra por não molestar o tempo com o que apertadamente tento pensar.
Não é de todo ruim.

Sou amado, mas não abstratamente. O amor que tenho não foi uma invenção convenientemente criado para superar a tristeza que é causa de nossa mortalidade.
Sou amado por quem, com muita força, sustenta as minhas fraquezas que afirmam ter receio do modo como vejo o mundo.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Tempos Abafados


A angústia é a parte abafada em nós. Ao tentar dizer o que é não consegue e assim, partes do nosso corpo são para ela o espelho de seu significado.

Psoriase nos cotovelos, mancha nas pernas, madrugadas escuras e desconfortantes...

É o patologia da matéria,
é a soma que arranha o véu de seda do nosso interior.

Atenham-se de Schopenhauer e seu esforço em nos dizer que qualquer tentativa de felicidade é somente um intervalo para aplacar a dor. Viver é sofrer.

E eu que penso religiosamente, não posso deixar de lado a parcela da herança da cruz do Cristo, pois sem isso, a Ele não posso seguir.

Entretanto,
há anos atrás deparei-me com algo de Albert Camus no seu "O improviso dos filósofos" onde num diálogo o Sr. Neant (devorando a comida) trata da angústia como uma virtude:

- "Ah Senhor, nada mais é consolador do que a angústia e nada é pior do que a vida privada dessa virtude. Na verdade, é impossível viver sem a angústia e é ela que faz viver sem que provoque o menor dos males. Prova disso é que os mortos não a provam."


E ele termina comendo selvagemente:
-"Angústia e mais angústia, angústia sempre Sr. Vigne, e estaremos todos salvos."

Pode a angústia nos inclinar para o bem?
Trata a angústia de uma das características do homem ético?

Fato é que ela nos faz estranhar a tudo e a todos,
inclusive a nós.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Confidências

Em 1628, o pintor holandês Rembrandt deu a esta obra o título de Os dois filósofos.

Eles cortejam um do outro a consciência de si para depois dilatar os intervalos de uma conversa sem hora pra terminar.

Deve a filosofia as mesmas obrigações de um vassalo a linguagem que heroicamente violou os espaços infinitos dos gestos, das emoções e da necessidade do silêncio.

Filosofia é linguagem - não é Wittgenstein? - ,
é o que não me deixa dar nomes ao que não conheço, é o que dá a mesma importância ao tamanho do Nada e de Deus entrecortando a corrupção e a enchente.

Se eu não converso acho tudo natural...

Fazem Os dois filósofos de Rembrandt o que em função dos apelos do mundo devemos fazer: continuar uma conversa que não deve acabar.


sábado, 21 de novembro de 2009

Sucumbido


Meu Deus, que projeto é o homem?

Infinito?

Somos um desejo do cosmos que não deu certo?

Um tropeço da matéria?
Ou a saliva do Espírito lançada no barro da misericórdia?


Quem preenche esse vazio profundo de dentro de nós?

Quem pode nos salvar do relativo?

Da desigualdade que divide em classes a raça humana?


As vezes eu me canso...


Canso da humanidade nos meus fracassos,
nos meus pecados:

Asco de mim!


Eu quero a totalidade quando o fragmento e a parcela é o que se espalha por aí,

é o que se encontra em finitos.


Tenho medo do enquadramento,

medo da felicidade nos objetos efêmeros,

da ilusão, produto do endeusamento das coisas que se adquire.


Medo da vaidade.

Sou insatisfeito da imanência.

Embora seja isso o que sou,
habitado pela grandeza desejante
e pela cura do limitado não me atrevo furtar em minha intenção uma prece,

um desejo suplicante,

um pedido de perdão pelo que sou.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Vendavais

A função da arte é violentar, constranger.
Eis assim, o algo sujo que somos numa noite de angústia.

É a revelação da mulher que amo por ela mesma:

Suspendo a nobreza fiel ao alcançar o rastejo indiscreto da ignorância:
Bela epópeia humana.


Ora,

Vós sabeis quem sois dentro de mim.

Um eu absurdo inundando aquele propósito de si.

(Agudo projeto

Soluço inquieto)


Insônia?

Sonolência?

Eis o ambíguo do espelho encarnado.

No alvo alcance expectativas pobres.

Esperança toma-me de mim!

Alude a ilusão da maioria,

da realidade inquieta que o espírito não traz.

Leva-me a vontade. Essa que Deus nem me prometeu.


Assim,
levanto a pobreza dos vendavais...
Felicidade perante Ele.


FREITAS, Alyria.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

De mãos estendidas, cegas e encardidas.


Os homens, tão apressados, estendem uma cortina em seus olhos.
Não querem ver as minúcias, não querem tomar ciência da dor urbana.
Em torno a si, dão-se as mãos a cerca e os arames farpados.
Para não romper o elo que segrega, aplacam os punhos do real com um escudo forjado na ilusão.

De quem são estas mãos vazias?
São tão inobserváveis mesmo sendo vistas.
Querem presentificar o que o egoísmo torna ausente, querem sentir a leveza do metal cujo valor está em alimentar o corpo faminto,
o corpo doente,
a família carente...

E estas encardidas? De quem são?
Ontem eram as que na boca trouxeram um parque de diversão, um circo que oferta o prazer do vício desgovernado,
completamente entregue,
indomável.
Hoje são as que pedem um pedaço de pão e dos espectadores, longes da contemplação, recebem a indiferença, um não.

Em cada esquina, em que cada passo que dou, trombam o cheiro de urina e o perfume, a pobreza e as migalhas no chão, o esclarecido e o louco profeta.

Todo dia destas mil mãos humanas de ontem foi hoje a cópia das mil mãos humanas de amanhã.

As mãos que enrolam as farpas de arame põem um termo a solidariedade que sem rumo cansa e magoa os olhos acortinados e enfraquecidos.

Mãos cândidas ou de luz. Se tudo isso querem, aqui não serão.
Vejo nelas os cravos de Jesus, ali, onde pende o sacrifício do mundo por detrás do fogo, da guerra, na cruz.

sábado, 15 de agosto de 2009

Saber esperar



O que me atormenta não é a realidade de minhas fraquezas quando, pensando nelas, acredito ter-se tornado impossível realizar alguns intentos.

Caído, prestes a beijar o chão do fracasso, corro o risco de perder a coragem, de desistir.

É no chão que conheço o amor de Deus.

Tudo é graça.

Qualquer prestes a cair fará que eu compreenda ainda mais o valor da espera, porém, a desconfiança de mim mesmo faz germinar a confiança em Deus, nosso Pai.

O homem angustiado - não o desesperado -, o cavaleiro kierkegaardiano, dispõe antes da oração para dar a sua vida o que não tem a fim de que o alimento sagrado seja alimento pro seu cotidiano.


Esperar provoca uma reação violenta e põe na realidade do tempo a existência de Deus em questão.

A fé é a chuva que cai depois que a espera insistiu em ser longa estiagem.